Sucuris acasalam com até 13 machos e parem dezenas de filhotes por vez
Reprodução/ Instituto Butantan
Nas últimas semanas, casos de atropelamento e morte de sucuris grávidas foram registrados e viralizados nas redes sociais. Além disso, resgates desses animais em perímetro urbano também tem sido comumente divulgado pelo Corpo de Bombeiros. Para entender os motivos por trás disso, bem como os hábitos da espécie, o site conversou com Bruno Câmera, especialista que explicou que janeiro está entre a época de gestação das sucuris verde e do Pantanal.
Bruno Câmera é formado em biologia pela Universidade de Mato Grosso (Unemat) e doutor em Biodiversidade e Evolução e desenvolveu sua tese acerca das sucuris-verdes. O biólogo, pesquisa sucuris há quase 10 anos.
Gazeta Digital – Primeiro, gostaria que você explicasse como funciona a reprodução das sucuris
Bruno Câmera – As sucuris passam por uma estação reprodutiva que muda a depender da espécie. A sucuri do marajó começa a se preparar para a reprodução por volta de abril ou maio. A sucuri-verde, tem o período de gravidez que se inicia em janeiro e se estende até junho e a sucuri do pantanal tem o período de gestação de novembro até março.
Durante a estação, ocorre o que a gente chama de “Bola Reprodutiva” onde a fêmea vai se envolver com algo entre 1 e 13 machos durante 2 até 46 dias, com uma média de 18 dias. A gestação pode durar até 7 meses.
A fêmea engorda para conseguir se reproduzir e ela vai parir os filhotes vivos. Como o método de predação dela é a constrição, ou seja, ela se enrola na presa e aperta para causar uma parada cardiorrespiratória, ela não consegue utilizar seu método de caça durante a gestação ou ela acabaria matando os filhotes também. Então, se ela não conseguir acumular energia, ela pula a estação reprodutiva, que ocorre a cada dois anos.
Reprodução
Bruno Câmera, biólogo formado pela Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat) e doutor em Biodiversidade e Evolução
Gazeta Digital – As sucuris têm algum tipo de migração ou movimentação como outros tipos de animais?
Bruno Câmera – Não. As sucuris não têm migração. Elas se locomovem de forma aleatória e, durante a estação reprodutiva, os machos se locomovem muito mais. Por isso é estranho observar esses atropelamentos de fêmeas nesse período.
A gente sabe muito pouco sobre o comportamento de deslocamento das sucuris. Elas são filopátricas e ficam ali no ambiente, ou seja, esses animais têm uma área de vida muito específica. É diferente da territorialidade, elas não defendem território, mas têm uma área de vida bem definida.
Gazeta Digital – No caso de atropelamento, pessoas relataram ter centenas de filhotes na estrada. Quantos animais essa espécie pare?
Bruno Câmera – Nas pesquisas, o máximo que foi relatado foram 70 indivíduos, mas a média é menor, cerca de 40 indivíduos.
No caso de atropelamento que foi registrado, um sanitarista contou e relatou ter algo entre 100 e 120 filhotes. Nesse caso, entra a questão de que quando a fêmea está grávida, ela vai ter o parto dos filhotes e pode ser que nem todos nasçam e muitos morram durante a gestação. Esses serão absorvidos pelo organismo da própria fêmea. Pode acontecer também de ela parir e comer alguns filhotes.
Gazeta Digital – Algo que deixou os leitores do surpresos foi que a sucuri tinha os filhotes na barriga ao invés de botar ovos. Isso é comum nas serpentes?
Bruno Câmera –A viviparidade [parir sem botar os ovos] não é tão comum nas serpentes, mas nas jiboias isso está relacionado à origem dos grupos que ocorreram em regiões mais frias.
Os ancestrais dessas serpentes, os boídeos, habitavam regiões mais frias, então o modo de reprodução vivíparo [sem botar ovos] seria mais vantajoso para manter esses embriões no organismo materno em vez de colocar os ovos no ambiente.
Gazeta Digital – É comum vermos relatos de bombeiros resgatando essas espécies em locais dentro ou próximos às cidades. Isso pode ser um risco?
Bruno Câmera – Sobre esse tema, eu submeti um trabalho para uma revista. É muito importante manter as populações que estão dentro das cidades viáveis, pois elas prestam serviços ecossistêmicos. Elas são predadoras de topo e se alimentam de ratos, por exemplo, que espalham doenças, então elas controlam esses vetores de doenças. Ou seja, elas desempenham um papel importante até mesmo nas cidades.
Gazeta Digital – Qual é o papel desses animais no meio ambiente?
Bruno Câmera – Sucuris são carnívoras e se alimentam basicamente de tudo que conseguem se alimentar. São animais bem generalistas. Aquelas histórias de que comem bois é um pouco de lenda, mas elas conseguem se alimentar de animais grandes, tipo veados, capivaras, jacarés, tartarugas e até mesmo ovos.
Elas são predadoras de topo, o que é importante para o equilíbrio do ecossistema, então elas controlam a população das suas presas. Existe uma “pressão de cima para baixo”, como chamamos na ecologia. O predador exerce uma pressão sobre as populações de suas presas, isso é muito importante pro equilíbrio dos sistemas ecológicos.
Eventualmente elas também se alimentam de carniça, o que é muito engraçado e bem peculiar. É um serviço de limpeza no ecossistema. Isso já foi constatado para a sucuri amarela, do pantanal.
É importante lembrar também que elas têm uma alimentação voltada para o tamanho de abertura da cabeça. Elas não vão se alimentar de bichos que ela não consegue engolir. Se ela tentar, vai acabar morrendo. É um comportamento que seleciona os animais também.
Gazeta Digital – Durante seus anos estudando a área, existe algum fato curioso você encontrou sobre as sucuris?
Bruno Câmera –Algo curioso é que a gente não entende muito bem o motivo do gigantismo delas. Uma das ideias que se tem é que, quanto maior o bicho, maior a capacidade reprodutiva, mas é extremamente difícil estudar sucuris por diversas questões. São bichos difíceis de encontrar, elas ficam escondidas e em locais de difícil acesso. Para você conseguir uma boa amostragem para qualquer estudo vai demandar muito tempo e dinheiro.
Gazeta Digital – O que você orienta a se fazer em caso de se deparar com esses animais na estrada?
Bruno Câmera – Quando você vê uma sucuri na estrada, o que deve ser feito é parar e esperar ela passar. É um crime ambiental fazer o manuseio de espécies silvestres sem que se tenha a devida autorização.